Às vezes parece que não escrevo porque as coisas são fáceis demais. É ao contrário, são difíceis demais. Dá até vontade de dizer que estou larvando, ou lavrando, um salto aqui. Mas é claro que não é o caso. Quantos Napoleões-para-si-mesmos, tantos Pessoas-para-si-mesmos.
Exponho então uma teoria, um pouco como quem toca um piano - que é como vejo o escrever em geral -, mas, no caso, como quem toca um piano rápido demais, como quem declama um poema rápido demais: é o que li hoje, depois de tanto tempo. E com certeza prefiro tocar um piano rápido demais do que recitar rápido demais.
É sobre uma teoria psicanalítica, se é que se a pode chamar assim, teoria psicanalítica. Empresta ares de seriedade, e o vulgo hoje se deixa contaminar tão facilmente pelos ares de seriedade. Não dá muito vem alguém e diz: é ciência. Diz-se de cada coisa que é ciência hoje em dia, como quando mudam de opinião sobre saber se ovo, se café, se um copo de vinho ao dia são bons ou maus para a saúde. E mudam de opinião ao menos duas vezes por ano que eu já reparei. Aliás, esse é o único motivo pra se ler jornal todos os dias hoje em dia, reparar em coisas como essa: que mudam de opinião tantas vezes por ano sobre a benevolência ou malevolência dos alimentos. Parece banal, mas é essencial, eu diria.
A teoria da qual estou falando é uma que diz, em linhas toscas, o seguinte: o único prazer verdadeiro é o prazer sexual, quer dizer, da cópula carnal, como se dizia nas aulas de Medicina Legal. Todo o resto seria sublimação - era essa a palavra? Assim ler um livro, assistir um filme, jogar futebol e videogame, certamente escrever poesia, ou gostar do trabalho que se faz. Não é essa aliás a fonte de toda civilização?
Pois aparece então essa separação bem curiosa entre o prazer verdadeiro - cuja repressão, e subo acima das sandálias, geraria histeria e coisas assim - e o prazer-sublimação, que é todas essas coisas acima, mais quando ficamos torrando no sol ou saímos pra dançar.
E então vem uma consequência quase lógica disso: é preciso enterrar o prazer-sublimação e realizar o desejo em sua forma pura (por assim dizer). Por exemplo o padre que nem se toca mas fica estasiado no seu discurso de glória a Deus, os corintianos todos como pontinhos na arquibancada, o químico descobrindo uma reação que não conhecia, estamos todos sublimando. E haveria uma certa evolução, digamos assim uma evolução-regressão, em acabar com essa sublimação toda e ir direto ao que interessa. Quer dizer, haveria aí uma certa subversão do valor-trabalho e da repressão social, e portanto uma certa libertação.
Só que isso parece que não se sustenta à aplicação da lógica, isto é, não se sustenta se examinarmos a coisa em si e muito menos se pusermos a teoria em quinta, quer dizer, ao testar o motor até suas últimas conseqüências.
Um primeiro motivo pra desconfiar, e isso foi um amigo que me disse muito tempo atrás, é que essa tese, a tese do prazer verdadeiro, coincide com as teses da publicidade mais rasa. Por exemplo, a propaganda de cerveja (ou de Halls, for that matter): um piano, a mocinha de coque e óculos compenetrada tocando, um gentleman de colete ao lado, quem sabe porte um violino, quem sabe apenas escute com atenção encostado contra uma coluna grega. Entra a cerveja (ou a bala refrescante): saem o coque, os óculos, o colete e toda a roupa que pode sair no horário, saem o piano e o violino, entra uma praia, gente magra e bronzeada correndo, pranchas, cerveja ou bala refrescante. Fim.
O que é isso senão um pequeno tratado que busca demonstrar justamente isso? Que todo refinamento, toda erudição, são sublimações. O prazer-ele-mesmo é cru e sensual. Você pode passar a vida fazendo receitas orientais, mas o que você realmente quer é uma batata do McDonald's dessas que não se decompõem na natureza. A receita oriental é uma sublimação como a música erudita, e o sexo explícito tem seu equivalente gastronômico na batata do McDonald's.
É uma inversão até bastante simples, não sei como não percebemos antes, e podemos inclusive justificar cientitificamente. Até Darwin, vamos colocar, estava lá o homem bíblico, o homem grego, o homem que se distinguia justamente por ser capaz de controlar suas pulsões, por não ter como únicos motores pedaços de carne crua e odores de cio.
Daí depois não. Era justamente o contrário. O homem nada mais é do que um animal domesticado, e essa domesticação é exatamente isso, a sua prisão. A prescrição é até óbvia, como não percebemos antes? Liberte-se, abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa. Me leve com você no seu sonho mais louco. Quero ver seu corpo lindo, leve, solto.
Acho que a isso se chama a inversão do sentido do superego. É um bom nome, em todo caso.
Além dessa primeira constatação, e assumindo-a como verdade, sou a favor de não aplicar uma teoria tão revolucionária apenas parcialmente. Algo que nos mostra o verdadeiro em meio ao falso certamente precisa ser geometricamente estendido a todas as áreas da psique humana. Se libertamos nossas feras em Eros, naturalmente que o próximo passo parece ser libertá-las em Tânatos. Estou falando como um astrólogo?
Porque as pulsões, se bem me lembro, são duas: a de criação e a de destruição. Se rejeitamos as falsas-criações como sublimação do prazer-verdade, proporcionado pelo sensual, nada mais natural que rejeitar também as falsas-destruições.
Assim sendo, precisariamos lembrar todos aqueles corintianos de que destruir moralmente os seus adversários é apenas uma sublimação; assim também o advogado, que tanta atenção dá à verdadeira pulsão sensual nas suas noites pós-trabalho, deverá aprender que a redação de um contrato impecável nas suas intermináveis jornadas pré-balada é apenas a sublimação de suas pulsões destruidoras - que só podem ser aplacadas pela destruição praticada pelo corpo, e não representada por uma promoção. Derrotar o outro em uma partida de tênis é o prazer-falseamento; o prazer-verdade estaria em, não digo matar o colega de trabalho, mas ao menos quebrar-lhe um braço através de uma manobra marcial. Há até gente, no Rio em especial parece, que está bastante avançada nesse aspecto da libertação do homem-animal.
É claro que, colocada no papel e dada a mentalidade retrógrada que ainda assola nossos dias de hoje, essa teoria pode parecer um pouquinho revolucionária demais. Mas Larry Flint também teve seu julgamento. A contestação conservadora não resistirá por muito tempo à lógica. O homem verdadeiramente livre do processo civilizatório deve ser livre para matar e morrer. Por que, afinal de contas, libertar Eros de suas amarras sociais, incentivá-lo mesmo a aflorar, e ao mesmo tempo manter contido nosso Tânatos de tanto potencial? É preciso acabar com essa esquizofrenia e devolver às nossas teses a coerência dos gregos.
4 Comments:
Olá, GG. Passei pra uma visita sem hora marcada, ando saudoso desses nossos papos. Espero que este post venha te encontrar bem. Vai daqui um abraço
Não só me encontra bem como quase que encontra Paulo Ferraz bem comigo. Quando está marcada a próxima sessão de autógrafos em SP?
(ah, tentarei postar algo em breve; se esperar bastante, até que tenho o que dizer, no fim das contas)
caralho!!!!!
eu adorei esse seu texto!!!!!!
faz todo o sentido!!
devolver a coerência dos gregos!
Interessantíssima idéia, centrada na libertação da psique via Eros e Tânatos.
Eis a coerência grega, então.
Variam as versões escritas que nos chegaram sobre seu nascimento.
Para alguns, seria filho de Hefesto, Ares ou Zeus, sempre co Afrodite, e nestas linnhagens, deus do amor e da paixão.
Já segundo Hesíodo, belo e irresistível, insensato, unifica e coordena os elementos, contribuindo para a passagem do Caos ao Cosmos.
Já segundo Platão, Eros sênior é filho de Poros - mais rico que Creso ou Midas - e de Pínia - a qual vivia na pindaíba, na pindura, na penúria, etc.
Por isso Eros vive sem teto, duro, sujo e maltrapilho, mas, no pouco que puxou o pai, acaba se virando.
Caçador, intrigante, inventivo, astucioso, ardiloso, sofista, encantador no sentido mágico, filósofo enfim.
Os gregos tinham uma lógica curiosíssima na transposição das fragilidades e forças humanas nas divindades.
Em qualquer das hipóteses, Eros é marido de Psiquê. Pais de Eros II (esse trigêmeo é o deus que cuida dos amores).
O que nos leva de retorno à tese dracerótica, em que se nos libertaríamos de nossas amarras sociais libertando exatamente a nossa psique, que é a mulher de Eros, libertando nela também Tânatos, deus da morte, coração de ferro e entranhas de bronze. Sim, até porque gozar é sempre um momento de morte para revivecência.
Palpitante a tese.
H J S F
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